21 de jan de 2019

Sobre as caixas


Estava pensando acerca das caixas, que a sociedade usa para rotular a alma da gente. Direita, esquerda, pra casar, vadias, gays, heteros, normais, loucos...
Estou na terapia há algum tempo (é muito importante para lidar com perdas, aceitação, traumas e dores). Acontece que naturalmente já sou um ser questionador, que dificilmente aceita uma ideia pronta, sem alguns porquês. Sendo estudante de psicologia isso ficou pior. 
Me questionava se a terapia estava tendo progressos, se a abordagem era adequada. A abordagem utilizada pela minha psicóloga era a psicanálise. Eu falava bastante acerca de tudo, havia dias em que me sentia bem, outros saia pensando bastante e noutros parecia que abria uma torneira de emoções conflitantes. Contudo, realmente gosto dessa psicóloga, ainda assim, fui tentar uma experiência diferente ano passado. 
Eu tinha acabado de descobrir que estava doente. Fiquei bastante abalada. Cortei meu cabelo acima do ombro para doar para as crianças com câncer. Foi assim que cheguei no consultório dessa outra profissional. Angustiada, cheia de ansiedade e dúvidas. Há momentos em que você não sabe quem é ou no que acreditar. É difícil. É duro, porque a sociedade espera algo de você, mas você ainda está em construção. 
Ela foi fazendo a anamnese (espécie de questionário com informações psicossociais) comigo, perguntou sobre minha família, me cortou no meio de uma resposta e escreveu o que tinha como certo. Eu já estranhei. Na psicologia a escuta é extremamente necessária, eu não posso dizer o que a outra pessoa sente, só quem sente sabe o que sente. Mas segui em frente. Perguntou sobre trabalho, estudo. E religião. 
Eu disse que não tinha religião. Ela me olhou espantada: “Mas você não acredita em Deus?” Fiquei tão surpresa com esse questionamento espantado. Ela estava me julgando e colocando em caixinhas. E ainda estávamos na anamnese. Eu disse: sim, eu acredito muito em Deus. Ela suspirou aliviada: “então você é cristã” e anotou lá. Desisti de dar as respostas sinceras e passei, eu, a analisa-la e dar as respostas que ela achava conveniente. Não voltei mais.
Se em uma questão como fé ela já não me compreendia, imagine quando eu dissertasse sobre minha maneira de ver o mundo e aquilo que acredito? Voltei para a primeira psicóloga que me ouvia sem olhares julgadores, me interrompia para me ajudar a pensar e me permitia ser eu. Não há, nesse mundo, nada mais confortador do que alguém que lhe aceite por quem você é sem lhe limitar a categorias. Cada pessoa é um universo, não cabemos em caixas. Somos mais que isso. Ou deveríamos, ao menos, tentar ser.

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